Carta a quem ousa liderar

Carta a quem ousa liderar

Com formação generalista em Administração, me dediquei (apesar dos preconceitos existentes contra a área) a estudar gestão e me apaixonei. Foi um curso que me deu base humana, social e matemática para lidar com desafios não só de mercado, mas da vida. Uma coisa que eu sempre disse do porquê estudar Administração é que, no final do curso, o mínimo que você pode fazer com ele é administrar sua vida.

Durante a graduação, falamos bastante sobre liderança e todos os requisitos necessários para ser um bom líder e ter uma equipe de alto desempenho. E, durante minhas primeiras experiências coordenando equipe, ainda como estagiário, sempre me questionei se eu estava sendo um líder à altura do que a literatura considerava como bom.

Já na pós-graduação, a professora da disciplina de liderança enfatizou um fator considerado primordial para ser um bom líder: o autoconhecimento. E, hoje, eu não poderia concordar mais com ela. Durante o exercício da gestão, eu me senti colocado à prova diversas vezes, sobretudo como ser humano. Tanta vezes, através do outro, me deparei como meus próprios limites e com minhas próprias sombras. Então, me sentia sempre num desafio dicotômico: de um lado, eu teria que lidar e liderar pessoas e, de outro, lidar com meu próprio 'eu'.

É nesse desafio que o autoconhecimento se torna necessário. Dividir o que sou do outro. Saber o que vem de mim e o que vem do outro. Identificar se o problema é meu ou é do outro. Na minha última experiência, coordenando uma equipe de 16 pessoas, eu fui confrontado diariamente com todos esses e tantos outros questionamentos e não me restou outra saída senão voltar para terapia. Buscar ajuda psicoterápica foi a solução que encontrei para superar todos esses entraves que me ocupavam a cabeça constantemente e retomar o meu processo de autoconhecimento.

Todo essa inquietude ainda foi intensificada pelo fato de eu estar em um ambiente completamente novo para mim – uma agência de comunicação digital. Uma área da qual eu não tinha experiência e, portanto, não havia conhecimentos técnicos daquele mercado predominantemente publicitário. Nesse momento, uma pergunta se tornou muito presente em mim: como liderar pessoas de áreas tão diferentes da minha sem ter propriedade técnica para avaliar minuciosamente o trabalho de cada uma delas?

Essa questão me consumiu durante dias e mais dias até que, depois de muita reflexão (e algumas sessões psicoterápicas), eu decidi encarar esse novo desafio e pautei minha decisão no que eu sabia e gostava de fazer e no que eu mais acreditava: gerenciar pessoas.

"100% dos clientes são pessoas. 100% dos colaboradores são pessoas. Se você não entende pessoas, você não entende de negócios." Simon Sinek

 

Atitudes humanas são atitudes gerenciais

 

Humildade

Vencendo qualquer barreira que o meu orgulho insistia em colocar, decidi me colocar como interdependente da equipe e de cada pessoa que a compunha. Esse exercício da humildade não é tarefa fácil, porque em algum momento os integrantes da equipe vão querer testar os seus limites e sua postura gerencial. É quando os seus ideais devem se manter firmes no propósito em que você acredita.

É assumir o seu desconhecimento com um "eu não sei" e, ao mesmo tempo, completar com "mas eu posso aprender com você".

É estar certo de que todos são falíveis, assim como você. Colocar-se numa postura de igual para igual, de ser humano para ser humano. Decretar a humildade internamente foi a minha primeira realização nesse processo.

 

Confiança

Encarar-se como interdependente significa que cada eu precisava do outro e o outro precisava de mim para o movimento acontecer. Então, surgiu uma outra necessidade durante o processo que foi a de confiar. Eu precisava confiar, assim como precisava da confiança de todos para podermos entrar num processo sinérgico. E, aos poucos, fomos criando uma conexão, através da confiança, afinal estávamos ali para crescermos juntos, estávamos jogando no mesmo lado do campo, num mesmo time. E, quando falo confiar, é confiar de forma geral: acreditar que o outro cumprirá seus prazos, que terá a responsabilidade e comprometimento de fazer o seu melhor sempre.

Eu vejo a confiança como uma forma de se conectar ao outro, em que todos, confiantes uns nos outros, estarão cientes da sua corresponsabilidade com os resultados do todo.

 

Ouvir com atenção

Confiando uns nos outros, abríamos um espaço além do simples campo profissional. E, assim, eu coloquei a disponibilidade do ouvir cada integrante da equipe. Ouvindo atenciosamente cada um e suas expressões de sentimentos, fossem eles positivos ou negativos, eu poderia conhecer melhor cada um como indivíduo, sua história de vida, seus anseios, seus sonhos e suas angústias. Como foi importante esse processo de abertura!

Foi ouvindo-os que pude reconhecê-los pelas pessoas que eram e não pelos cargos que ocupavam.

Escutei muitas histórias e desabafos, presenciei choros e crises de ansiedade. E todos esses momentos que passamos juntos só fortaleceu o elo da equipe e a prática da empatia.

 

Empatia

Desenvolver a empatia foi uma atividade que muito me ajudou nessa experiência. Tentar enxergar o mundo através dos olhos de outra pessoa. Que difícil tarefa! Sim, tentar me colocar no lugar do outro foi me trazendo uma serenidade interessante, pois pude internalizar o quanto cada pessoa era única e trazia em si atributos tão diferentes e tão preciosos.

Fui conhecendo a individualidade de cada um e aprendendo a enxergá-los como únicos e incomparáveis.

Então, já não me surgiam comparações de pares do tipo 'fulano é melhor que sicrano'. Não! Não é questão de ser melhor ou pior, eles são diferentes e possuem potenciais e fraquezas singulares. E, como escrevi no meu primeiro artigo:"aprendi que trabalhar com pessoas é trabalhar com ser humano e ser humano, a gente tem que tratar com a complexidade que ele possui".

 

Acreditar

Com a empatia vem a esperança – o sentimento de esperar o melhor. Acreditar em mim, no outro e no todo foi o meio que encontrei para seguir no exercício da liderança.

Eu passei a acreditar na sinergia. Acreditar que juntos poderíamos ser muito mais. Que os resultados poderiam ser otimizados quando todos conquistassem a consciência do todo e da sua importância para atingir os objetivos em comum.

O crescimento de cada um passou a ser o crescimento da equipe. O esforço e o autodesenvolvimento de cada integrante repercutia nos resultados estampados nos relatórios periódicos. E, para mim, foi o maior orgulho que eu poderia ter como coordenador de equipe (e por que não dizer líder?).

E sabe como eu cheguei a todas essas conclusões? Ao ouvir da minha equipe- formada por alguns profissionais experientes e vindos de grandes empresas – a avaliação de que aquela equipe foi a melhor com a qual eles já tinham trabalhado. São esses pequenos momentos, mas tão significativos que nos fazem continuar, seguir buscando o melhor e a se esforçar diariamente para vencer os obstáculos que insistem em aparecer.

 

Pessoas são o princípio, o meio e o fim

Com essas atitudes, pude entender, empiricamente, que a arte de gerir está na beleza de se relacionar e aprender com o ser humano, com o próximo, com o outro.

Pude comprovar que gerenciar pessoas é gerenciar marketing, projetos, capital intelectual, finanças, clientes e qualquer outra área especialista. Pessoas são (e sempre serão) o motivo principal de todas as outras áreas existirem. Logo, nada mais inteligente do que nos dedicarmos a, primeiro, nos autoconhecer para, em seguida, entender melhor as pessoas e toda a complexidade que as compõem.

Se você não é da área de gestão e, por alguma oportunidade de mercado, está enfrentando o desafio que é gerir, digo-lhe, sem medo de errar:

dedique-se a pessoas.

Primeiramente, a você! Psicoterapia, meditação, leituras edificantes, yoga, prática de esportes são alguns meios para você se conhecer melhor, se reconhecer como uma pessoa, um ser humano vitorioso e conquistador como também errante e falível. Depois exercite a sua habilidade interpessoal. Pratique a humildade de aprender com as diferenças, a confiança no outro, o ouvir atento e o acreditar que a soma é maior que as partes. Coloque-se como uma pessoa que, no meio de tantas outras, tem muito o que ensinar, mas tem muito a aprender.


Links para se inspirar:

Humildade: O que é Humildade, segundo Mario Sergio Cortella

Meditação: Tudo que é preciso são 10 minutos consciente

Empatia: Empathy: The Human Connection to Patient Care | Legendado

Acreditar: Crianças ajudam colega a superar obstáculo

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