Por que eu gostaria que você discordasse deste artigo?

Alteridade no trabalho

Porque, apesar de você ser igual a mim enquanto ser humano, você é muito diferente. Porque você tem experiências diferentes. Porque você tem uma visão diferente sobre um mesmo ponto. Porque você sabe algo que eu não sei. Porque o que eu vou escrever não é a verdade, é a minha (impermanente) verdade. Porque você vai me tirar da minha zona de conforto. Porque você vai me fazer pensar de uma forma que eu ainda não havia pensado. Porque eu vou aprender com você.

Esses são os motivos básicos para que eu acredite que o ato de discordar é tão fértil. O único problema que eu considero é que o verbo discordar é intransitivo e ele não exige complemento. Peço licença às regras gramaticais para propor que o discordar seja enriquecido com complementos que fundamentem a sua visão e possa gerar um diálogo produtivo entre mim e você.

É bom ter cuidado com quem concorda com você o tempo todo. Quem te respeita discorda de você quando tem que discordar, do contrário você não cresce. Mario Sergio Cortella

Você pode estar pensando que eu quero incitar ainda mais a polarização existente, sobretudo nas redes sociais. Não! Pelo contrário. Como disse Leandro Karnal, "a bipolarização não pensa, ela adjetiva". Não proponho adjetivações simplistas e infundadas, mas dialética – argumentações dialogadas. Conseguimos ver diariamente, principalmente no Facebook, como a falta de fundamentação nas opiniões é prejudicial e não gera nenhum aprendizado, mas sim uma onda de ódio que se espalha como uma pandemia. O que estou falando aqui é de alteridade, que

Trata-se do desafio de se respeitar as diferenças e de integrá-las em uma unidade que não as anule, mas que ative o potencial criativo e vital da conexão entre diferentes agentes e entre seus respectivos contextos. Reinaldo Fleuri

Alteridade implica em se colocar no lugar do outro, alternando seu ponto de vista com o ponto de vista do outro; significa "qualidade do que é diferente". E é nas diferenças que nos reconhecemos, que identificamos o que é nosso e o que é do outro. É a fonte mais pura de aprendizado. Acolher as diferentes visões de mundo, as diferentes opiniões nos permite ampliar nossa percepção de mundo e decidir o que fará ou não parte do nosso mundo. Para isso, precisamos nos abrir para o novo, para o desconhecido, para o diferente, para o outro.

Alteridade no ambiente de trabalho

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Quando entramos no mercado de trabalho, podemos ter uma certeza: vamos ter que trabalhar com pessoas bem diferentes de nós. Porém, mesmo fazendo parte de um país multicultural, ainda nos mostramos bem intransigentes à diversidade. E, no trabalho, isso normalmente fica bem claro com a frequência em que os conflitos acontecem entre partes de um grupo. Agora é hora de pensar o porquê isso acontece.

Estar num grupo significa conviver e interagir com pessoas diferentes de você e, consequentemente, lidar com conflitos. É só pensar no seu trabalho e lembrar quando aquela determinada pessoa fala e já te vem um impulso de responder, retrucar, rebater, sem nem ao menos tentar entender de fato a posição ou a opinião do outro. Parece um instinto nocivo que te impede de raciocinar, pois, naquele momento, a emoção preenche o teu cérebro.

A experiência da alteridade acontece para te ajudar a racionalizar primeiramente a tua postura. Como você está se comportando diante das diferenças? Qual teu posicionamento quando você é colocado em situações das quais você não concorda? Como você reage às opiniões contrárias as suas? O que você faz quando alguém critica o teu trabalho?

Acredito que a última resposta foi a mais inquietante. Um desafio que nos acompanhará por toda e qualquer experiência profissional é receber e lidar com os feedbacks sobre nosso trabalho. É nesse momento em que nosso senso de alteridade é posto à prova. Por isso, devemos sempre ter em mente que nossa atuação no mundo (e no trabalho) pode ser renovada e ser mais significativa quando acolho e internalizo a visão do outro sobre mim e sobre o meu trabalho.

Na minha última experiência, eu (administrador) coordenava uma equipe de pessoas (publicitárias) muito diferentes, mas que, com bastante esforço, paciência e, sobretudo respeito, experimentávamos (talvez sem saber) a alteridade no trabalho. Buscávamos extrair o máximo de aprendizado com o outro, com as diferentes visões sobre uma campanha, uma ideia ou um produto, potencializando a criatividade de cada um, a partir da contribuição do outro.

 

Você tem desenvolvido sua Competência Conversacional?

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Estabelecer um diálogo, uma conversação, uma comunicação clara e adequada não é uma tarefa fácil e essa dificuldade é fonte de muitos conflitos nas organizações. Podemos mudar esse contexto, desenvolvendo a nossa competência conversacional, a partir de mudanças de hábitos e de atitudes inadequados e que limitam os ganhos que as relações interpessoais podem nos trazer diariamente.

Em tempos hiperconectados, nos deparamos com uma dificuldade ainda maior de desenvolver essa competência, visto que ela se dá, na maior parte do tempo, através das redes sociais. Então, numa visão de alteridade, como podemos otimizar as conversações que estabelecemos? Seguem algumas reflexões:

Discorde – mas com argumentos. Entenda que o discordar é dar atenção ao outro, é promover a contraposição de ideias, de experiências, de um diálogo produtivo. Discordando, damos possibilidades de crescimento e aprendizado ao outro.

Leia/ouça com atenção. Antes de concordar ou discordar, pergunte-se se você realmente entendeu o ponto de vista da outra pessoa. Tente deixar-se um pouco de lado e busque compreender o que de fato o outro quis passar.

Exercite a mudança do seu olhar. Leonardo Boff afirma que para entendermos a leitura de alguém, precisamos saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo. Esse exercício é interessante para pensarmos no diferente contexto do outro: onde mora, onde trabalha, onde vive, com quem vive, que experiências tem. As respostas nos darão mais propriedade para estabelecer um diálogo construtivo e a compreensão do outro.

Veja o outro como fonte de renovação. Cortella nos orienta a buscar a renovação através do olhar do outro. Enxergue o oposto como uma oportunidade de você ser diferente, de ampliar sua visão de mundo e de si mesmo.

Todos têm algo a te ensinar. Ao acordar, lembre-se que cada dia é uma nova oportunidade de aprendizado e de mudança e que as pessoas que você vai encontrar sabem bastante coisa que você não sabe, mas que você pode aprender. Experimente olhar para o outro como um mundo de conhecimento ainda inexplorado por você.

 

A pergunta que eu deixo é: você discorda deste artigo? Espero que sim. Compartilha comigo tuas discordâncias e vamos aprender juntos! 🙂


Fontes e inspirações:

Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética – Mario Sergio Cortella

A águia e a galinha. Uma metáfora da condição humana – Leonardo Boff

Dez regras para conversar melhor – TED Talk – Celeste Headlee

Entrevista no Roda Viva – Leandro Karnal

Alteridade: uma noção em construção – Jonathan de Oliveira Molar

Alteridade – Wikipédia

Altérité – Le Définitions

Imagem: Operários – Tarsila do Amaral

 

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