O livro da biblioteca tem um recado para você

Na última semana, peguei um livro na biblioteca e, ao abrí-lo, me deparei com um livro completamente riscado com anotações, divisões de subtópicos por nome de pessoas e páginas e mais páginas destacadas com marca-texto. O mais irônico disso tudo é que o livro é "Pedagogia da Autonomia" de Paulo Freire (💚) e na capa do livro tem a seguinte frase: "Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém". 🤔

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Isso me levou a refletir sobre o sentido de compartilhar. Palavrinha tão falada na era digital, mas será que temos o seu significado bem internalizado?

pedagogidadaautonomia O livro da biblioteca tem um recado para vocêEssa definição do dicionário nos diz que compartilhar é "ter parte em". Ou seja, tudo que você compartilha, automaticamente você diz que aquilo tem uma parte de você, você participa daquilo e deseja (ou tem que) dividir com outros. E aí, eu fico pensando: compartilhar textos, imagens, vídeos nas redes sociais, independente do conteúdo, fala muito sobre você. Mas essa ainda é a parte fácil: você compartilha produtos digitais, não são tangíveis. Mas e quando se trata do mundo material, que tipo de compartilhador você é?

Voltando para o exemplo acima, na biblioteca temos um espaço para compartilhamento de livros que estão a serviço público, podem ser lidos por qualquer um. Quando você risca um livro que serve para leitura pública, como você está compartilhando esse livro? Dizendo que as suas percepções acerca do livro são mais significativas das que todos que leram antes e são os trechos mais relevantes para serem lidos pelos próximos leitores.

E o mais disso é que foi percebido num livro que trata exatamente da autonomia. Um livro que nos motiva a pensar por nós mesmos, termos a nossa própria voz, refletindo de maneira crítica a nossa realidade e todas verdades que nos foram impostas. Ser autônomo é, primeiramente, respeitar o outro em sua essência, dar o respeito que você quer para si.

E, ao contrário disso, o que estamos acostumados a ver em nosso dia a dia é justamente pessoas heterônomas, aquelas que reproduzem o que já é feito, repetem os comportamentos, as falas, o modo de viver da maioria ou das que detém (ou representam) o poder. E nessa reprodução de comportamentos, o compartilhamento aparece de forma egoísta, como no caso da pessoa usuária do livro antes de mim.

O que acontece é que vivenciamos uma realidade em que os espaços públicos no Brasil são completamente criticados por sua falta de cuidado, mas os próprios usuários (nós) não valorizam nem cuidam dos espaços que são comuns. O que está em jogo é: quando EU quiser usar, quero limpo e organizado. E isso vale para tudo: banheiro, praia, praça, copa da empresa… qualquer lugar que é compartilhado.

E aí, eu te pergunto: o que você faz para mudar esse ciclo vicioso do egoísmo? Quando você frequenta esses espaços, você os deixa da maneira que você gostaria de usá-lo?

Há um tempo, eu venho pensando nisso e me esforço, por mais que eu encontre um banheiro sujo, por exemplo, sem ter dado descarga, com papéis pelo chão, tento deixá-lo de maneira agradável para o próximo usuário. No exemplo do livro, decidi que, enquanto eu for lendo, e passando as páginas, vou usar minha borracha para apagar tudo que for possível, porque é exatamente assim que eu gostaria de tê-lo encontrado.

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Convido você a tentar problematizar, assim como eu, um simples livro riscado que poderia ser compartilhado em sua versão mais aberta possível a próprias reflexões e pensamentos críticos dos seus leitores de qualquer tempo. Se começarmos a nos tornar mais autônomos, aproveitando-se da nossa liberdade para transformar os nossos pequenos hábitos, dando valor ao que é nosso, ao que é compartilhado, poderemos ter orgulho em dizer que o que é público também é meu, porque aquilo tem uma parte de mim, me representa.

Que possamos aproveitar a imagem da borracha apagando as anotações e os riscos antigos, utilizando-a para apagarmos também os velhos hábitos egoístas e individualistas da nossa sociedade.

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