A difícil missão de estourar a bolha das redes sociais

Há um tempo, eu tenho me esforçado (muito!) para viver a dura experiência de não me deixar envolver pela confortável e consoladora bolha que as redes sociais nos proporcionam com seus algoritmos meticulosamente calculados para nos agradar e nos deixar vidrados deslizando o feed de notícias durante horas.

A maioria de vocês deve saber (ou já ter reparado) que o Facebook e o Instagram, por exemplo, têm uma tecnologia que mostra pessoas, assuntos e páginas para nós, de acordo com o que curtimos e interagimos na própria rede. Então, quanto mais curtimos posts de amigos e de páginas, mais essas pessoas e assuntos estarão presentes no nosso feed. Resumindo: os likes que damos definem nossos interesses.

Por consequência dessa inteligência presente nas redes sociais, nós nos depararamos com um agradável ambiente em que todos compartilham de opiniões, gostos, músicas, eventos, grupos muito semelhantes com os nossos. Ou seja, nos vemos dentro de uma bolha em que uma fina membrana de ilusão nos separa da realidade do mundo.

Foi percebendo tudo isso que senti a necessidade de mudar umas configurações nas minhas redes sociais. Tempos atrás eu dava unfollow em tudo que era gente que postava assuntos que divergiam completamente do meu interesse. Era assim que eu filtrava meu feed tentando torná-lo uma terra harmônica e feliz, onde tudo que estava ali me interessava e conversava com meus valores.

Com o tempo, percebi que aquilo me deixava tão distante da realidade do mundo. Porque o que de fato acontecia era que: supondo que eu e toda minha rede gostávamos de verde, o mundo tava preferindo o amarelo. Como lidar com essa divergência? 🤷🏻


A diferença não é deficiência


Foi quando eu senti a necessidade de experimentar tornar minha rede social um pouco mais parecida com a vida real, tendo inclusive que continuar seguindo pessoas e curtir algumas coisas das quais eu discordo totalmente para não poder me sentir submerso num mar ilusório novamente. Como é difícil!

É difícil aceitar uma visão completamente oposta da sua.

É difícil você entender que aquela pessoa "até legal" pode publicar uma coisa como aquela.

É difícil você se colocar num lugar de tolerância, diante de tanta intolerância do outro.

É difícil você segurar a emoção e chamar a razão ao ver aquele texto repugnante.

É difícil você perceber tanta ignorância e soberba espalhada em opiniões claramente desestruturadas e aleatórias.

Mas aí, nesse contexto, eu trago as seguintes reflexões: 🤔


Se nós não nos colocarmos num lugar onde a diferença se faz presente, qual será a possibildade de diálogo das diferenças?

Como nós poderemos evoluir nosso senso crítico da realidade (e provocarmos a criticidade do outro) se nos colocarmos num espaço onde a semelhança é dominadora?


Queria convidar todo mundo, junto comigo, a exercitar a alteridade (já falei um pouco sobre isso no artigo Por que eu gostaria que você discordasse deste artigo?) que trata exatamente de lidar com o que é do outro, com a diferença que o outro apresenta, com que o caracteriza. É a prática da alteridade que vejo como possibilidade de representar um alfinete estourando a nossa bolha social.

É por meio do exercício da alteridade (da paciência) que tenho esperança de que podemos respirar fundo e, ao invés de atacar o coleguinha que apresentou uma opinião tão divergente, apresentarmos o nosso ponto de vista, com a exclusiva finalidade de causar reflexão. A ideia não é convencê-lo de que estamos certo, mas de que existe um outra forma de pensar, que é diferente do que ele expôs.

Eu sempre digo: se nós publicamos algo, abrimos espaço para diálogo, pois existe uma opção de comentários nos posts, correto? Entendo que se foi publicado, posso contribuir naquela discussão com a minha opinião. E os meus posts, encaro da mesma maneira.

É isso que tenho tentado fazer. Tenho tentado deixar minha rede social mais perto da realidade em que vivo, seguindo pessoas que pensam tão (mas tão) diferente de mim e, além de eu poder reforçar minha identidade e meus valores, posso aprender com a diversidade de opiniões e crenças e exercitar minha capacidade de dialogar com esses contrastes, com essas divergências.

A ideia é criar uma cultura do respeito. Respeito a si e ao outro.

O que você acha? Como você tem lidado com a alteridade nos tempos digitais? Vamos compartilhar experiências! 🤓

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