Líder para você se inspirar: Nise da Silveira

Nise da Silveira e liderança

Recentemente, durante um curso de Introdução à Psicologia Junguiana, fui apresentado a Nise da Silveira. Seu nome me era familiar, mas eu ainda não tinha tido acesso a mais informações sobre sua vida. Durante o curso, a professora Liliane Martins, com muita paixão em sua fala, apresentou rapidamente a história de Nise e a sua importância para a medicina psiquiátrica e o desenvolvimento da Psicologia Junguiana no Brasil. Sua história me despertou interesse e, ao pesquisar mais sobre sua vida e ao assistir ao filme Nise – O Coração da Loucura, pude perceber grandes ensinamentos de liderança que Nise nos deixou como legado. No dia em que ela completaria 112 anos de seu nascimento, divido com vocês um breve perfil de Nise da Silveira e minha percepção sobre suas lições de liderança durante sua experiência em um setor de Terapia Ocupacional de um centro psiquiátrico no Rio de Janeiro.

Um breve perfil de Nise da Silveira

Filha de pais pernambucanos – mãe pianista e pai professor e jornalista – nascida em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas, Nise estudou em uma escola de freiras e, aos 16 anos, entrou na Faculdade de Medicina da Bahia, sendo destacada como a única mulher numa turma de 157 alunos e tornando-se, aos 21 anos, uma das primeiras médicas do Brasil. No seu trabalho de conclusão de curso, Nise realizou uma pesquisa sobre a criminalidade da mulher no Brasil, entrevistando assassinas, prostitutas e ladras de um cárcere em Salvador, Bahia.

Casou-se com Mário Magalhães da Silveira, seu colega de turma de medicina e um profissional dedicado a estudos sobre pobreza, promoção da saúde e prevenção de doenças no Brasil, e, aos 22 anos, mudou-se com Mário para o Rio de Janeiro – capital do país, na ocasião – onde concluiu sua formação médica em Psiquiatria. No Rio, Nise se envolveu nos meios artísticos e literários e em movimentações comunistas. Com 28 anos, Nise entra no serviço público, através de aprovação em um concurso, e inicia seu trabalho no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital da Praia Vermelha.

Após uma denúncia de uma enfermeira do Hospital de que Nise portava livros marxistas, Nise foi presa durante 16 meses. Nesse período como prisioneira, Nise conheceu Graciliano Ramos, que a mencionou como personagem em sua obra Memórias de um Cárcere. Após a anistia, Nise, aos 39 anos, foi reintegrada ao serviço público e alocada no Hospital Pedro II, localizado no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.

Chegando no Centro Psiquiátrico do Hospital Pedro II, Nise se deparou com a prática de tratamentos psiquiátricos como choques elétricos, lobotomia, camisas de força e isolamento, dos quais ela era totalmente contra, por considerá-los desumanos, violentos e a faziam lembrar das torturas que ela presenciou no período em que passou encarcerada. Negando-se a tratar os pacientes daquela maneira, Nise foi transferida para o setor de Terapia Ocupacional, atividade desprezada pela classe médica da época.

E é durante sua experiência no Setor de Terapia Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II que Nise nos dá uma verdadeira lição de liderança.

 

Lições de Liderança por Nise da Silveira

Humildade

Considerada uma médica psiquiátrica de grande competência e respeito, ao aceitar o espaço de Terapia Ocupacional do hospital, Nise não se preocupou com os possíveis julgamentos da classe médica e uma possível repercussão negativa em sua carreira. O seu foco era trabalhar para as pessoas e exercer sua profissão com excelência. Com essa atitude, Nise nos deixa um exemplo de como a verdadeira liderança é baseada, sobretudo na humildade. Um líder humilde, assim como Nise, atua como adubo para o terreno se tornar fértil e fazer florescer as belezas diferentes de todos os envolvidos em seu trabalho.

Eu estou ligando a mínima para minha carreira… Quem se preocupa muito com o que os outros dizem, acaba deixando de viver, sabe? Eu sei o que é melhor para mim. Eu quero trabalhar.

 

Agente de mudança

Quando Nise chegou no Setor de Terapia Ocupadional (STO), o local estava numa situação precária, com péssimas condições estruturais e os pacientes eram orientados a realizar tarefas de limpeza e manutenção. Nise, disposta e motivada a realizar um trabalho significativo aos seus pacientes, tratou primeiramente de mudar aquele cenário, tornando-o apto para iniciar suas atividades. Mesmo diante da resistência dos funcionários, Nise, através da sua própria atitude, motivou-os a integrarem-se em seu propósito, dando-nos uma segunda lição de liderança: o líder como agente de mudança.

É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade. Nise da Silveira

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Visão holística

Mesmo diante da incredulidade dos médicos do Centro Psiquiátrico em relação ao tratamento ocupacional, Nise propôs que a Terapia Ocupacional fosse incluída na prescrição do tratamento dos pacientes, de acordo com as necessidades específicas de cada um. Dessa forma, Nise nos mostra o quão importante é o papel do líder para compreender o valor dos resultados do seu setor ou área em relação ao todo e, além disso, como a integração das áreas pode contribuir de modo significativo para o alcance dos objetivos da instituição.

 

Humanização

Nise não concordava com os tratamentos cruéis e violentos que via no Centro Psiquiátrico e sugeria aos médicos que, mesmo os pacientes mais agressivos, fossem tratados como seres humanos. Nise também exigiu que sua equipe não tratasse mais os frequentadores do seu setor com o termo 'paciente', mas sim como 'cliente', deixando claro o papel, tanto o seu quanto o dos outros funcionários, de servidores em relação àquelas pessoas. A postura humana de Nise em relação a seus liderados e seus clientes mostra a delicadeza de um líder estimado ao enxergar as pessoas com as quais se relaciona como seres humanos, dignos de respeito e afeto.

O que melhora o atendimento é contato afetivo de uma pessoa com a outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito. Nise da Silveira

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Inovação

Ao conduzir as atividades do Setor de Terapia Ocupacional, Nise recebeu uma proposta de um estagiário da secretaria do hospital, Almir Mavignier, de introduzir um atelier de pintura no setor. Nise, adepta da terapia não-verbal, acolheu a ideia de Almir, um entusiasta das artes plásticas, e implementou atividades artísticas em seu setor, através de contribuições do próprio estagiário. Em pouco tempo, os frequentadores do espaço aderiram às atividades de pintura, desenho e modelagem e compuseram obras riquíssimas, conquistando o interesse de Nise em estudar aquela forma de comunicação dos psicóticos.

Nise, amante dos gatos e autora do livro Gatos, a emoção de lidar, também inovou ao implementar a convivência de animais no STO, chamando-os de co-terapeutas no tratamento de seus clientes. Nise acreditava que a relação com os animais desenvolvia a afetividade dos psicóticos e representava uma ponte para a vida real.

Sendo pioneira no tratamento através da terapia não-verbal e com animais, Nise nos deixa a lição de que o líder deve estar aberto ao novo e a novas possibilidades, disposto a quebra paradigmas, mas sobretudo, ter a sensibilidade ao inovar métodos de trabalho, adequando-os ao seu contexto.

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Aprendizagem contínua

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Ao enfrentar o desafio de liderar o Setor de Terapia Ocupacional, Nise sentiu a necessidade de estudar a área de TO na visão de diversos teóricos da época, como Kraepelin, Bleuler, Schneider, Simon, Freud e Jung. Porém, Nise não se limitava a seguir fielmente nenhuma corrente teórica, construindo a sua própria forma de trabalhar com seus clientes de acordo com o que eles a apresentavam. E foi analisando as obras artísticas dos frequentadores do STO que Nise percebeu e identificou semelhanças com as produções literárias de Jung sobre o inconsciente coletivo. Posteriormente, Nise se tornou a pioneira no aprofundamento e na divulgação da Psicologia Junguiana no Brasil.

Nise retrata a importância dos líderes buscarem novos aprendizados continuamente a fim de aprimorar seus conhecimentos, conquistar novos e, acima de tudo, gerar mudanças significativas e positivas em sua instituição.

 

Conquistas e reconhecimento

Com toda sua coragem, disposição, comprometimento e dedicação para realizar um trabalho valioso com os psicóticos, Nise conquistou muitos méritos em sua carreira e também o reconhecimento internacional. Como última lição de liderança, podemos apreender que, mesmo diante das adversidades, as conquistas e o reconhecimento são consequência de um trabalho feito com amor e humildade.

  • Nise dirigiu o STOR (Setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação) desde a sua fundação, em 1946, até sua aposentadoria compulsória em 1974.

  • Em 1947, uma exposição de arte foi organizada pelo Ministério de Educação e Cultura, outra em 1949, no Museu de Arte Moderna de São PauloNove Artistas de Engenho de Dentro.

  • Em 1952, Nise criou o internacionalmente famoso Museu de Imagens do Inconsciente, referência internacional e objeto de estudos e visitas.

  • Em 1954, estabeleceu contato com Jung através de cartas, onde discutia as mandalas de seus psicóticos. O primeiro encontro entre Nise e Jung se deu em 1957, no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Jung inaugurou a exposição Esquizofrenia em Imagens, do Museu de Imagens do Inconsciente, na presença da Nise que foi à Suíça com bolsa do CNPq. Esta mostra causou uma enorme sensação e foi o reconhecimento mundial definitivo das ideias e do trabalho de Nise da Silveira.

  • Em 1956, ela criou a Casa das Palmeiras, uma instituição externa para atendimentos dos padecentes mentais sem internação ou restrição de liberdade.

  • Fundou em sua residência o "Grupo de Estudos Carl Jung".

  • Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica, sediada em Paris.

  • Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico por meio das imagens do inconsciente deram origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências. E também inspirararam a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas, similares às que criou, em diversos estados do Brasil e no exterior.

  • Nise recebeu diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento.

Nise publicou 10 livros em toda sua carreira e morreu aos 94 anos, após uma insuficiência respiratória causada por uma pneumonia.

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Fontes:

História da Psiquiatria – Vida e obra de Nise da Silveira

Nise da Silveira – Fundação Joaquim Nabuco

Nise da Silveira – Luiz Gonzaga Pereira dos Santos

Pioneiras da Ciência no Brasil – Portal CNPq

Nise da Silveira – Wikipédia

As imagens e algumas citações foram retiradas do filme Nise – O Coração da Loucura.

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